
A relação entre Brasil e Estados Unidos voltou a ganhar espaço no debate eleitoral de 2026 após a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pedir ao Supremo Tribunal Federal (STF) e ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que investiguem uma possível interferência norte-americana nas eleições em favor do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL).
Os pedidos foram apresentados em 23 de setembro. No TSE, a campanha de Lula acusa Flávio Bolsonaro, seu vice, Alfredo Gaspar, e o ex-deputado Eduardo Bolsonaro de suposto abuso de poder político e econômico e uso indevido dos meios de comunicação. A ação também solicita a investigação de possíveis vínculos entre a campanha e estruturas estrangeiras.
Medidas dos EUA entram no debate eleitoral
A iniciativa ocorre em meio ao aumento das tensões entre Brasília e Washington. A campanha de Lula relaciona ao caso medidas adotadas pelo governo Donald Trump, como tarifas comerciais, sanções contra autoridades brasileiras e a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas.
O PT também citou no pedido ao STF anúncios publicados por perfis estrangeiros no X com conteúdo favorável a Flávio Bolsonaro. Segundo a petição, ainda não foi possível identificar quem financiou essas publicações. A campanha de Flávio afirmou não ter conhecimento dos anúncios.
Outro ponto levado à Justiça Eleitoral envolve suspeitas sobre possíveis conexões entre a campanha de Flávio e a Rockbridge Network, organização norte-americana ligada a grupos conservadores. O pedido do PT solicita que sejam esclarecidas a origem de eventuais recursos, os responsáveis pelas operações e se houve algum benefício eleitoral.
Até o momento, as suspeitas apresentadas nas ações ainda dependem de investigação e não comprovam, por si só, financiamento estrangeiro ou interferência ilegal na eleição.
Lula levou o tema à ONU
O assunto também apareceu no discurso de Lula na Assembleia Geral das Nações Unidas, em 22 de setembro. Sem citar diretamente os Estados Unidos, o presidente criticou a interferência externa em processos eleitorais e defendeu a soberania brasileira.
Na ocasião, Lula afirmou que o Brasil não deveria terceirizar a responsabilidade pelo combate ao crime organizado e declarou que o país “não cabe no quintal de ninguém”. As declarações ocorreram em meio às divergências com Washington sobre segurança, tarifas e política externa.
Governo americano nega interferência
A acusação ocorre enquanto o governo Trump mantém uma relação política mais próxima com setores da direita brasileira. Flávio Bolsonaro esteve com Trump nos Estados Unidos em maio e, desde então, passou a defender maior aproximação entre os dois países.
A Casa Branca, porém, nega que esteja interferindo na eleição brasileira. O governo norte-americano também afirmou anteriormente que respeitaria o resultado de eleições brasileiras consideradas livres e justas.
O debate sobre eventual influência estrangeira ganhou ainda outro capítulo após o TSE determinar a investigação de uma rede de perfis no Instagram que teria utilizado a ferramenta de colaboração da plataforma para ampliar conteúdos ligados à campanha de Flávio. O tribunal solicitou à Meta a preservação e o fornecimento de dados das contas envolvidas.
Disputa chega à Justiça Eleitoral
Além da campanha de Lula, o candidato Renan Santos, do partido Missão, também acionou o TSE alegando possível interferência estrangeira em favor de Flávio Bolsonaro. Os processos deverão avaliar se houve participação de agentes estrangeiros, utilização irregular de recursos ou estruturas digitais e eventual impacto sobre a disputa eleitoral.
As acusações ainda estão sob análise das autoridades brasileiras. Eventuais punições, como cassação de registros ou inelegibilidade, dependerão da apuração dos fatos e das decisões da Justiça Eleitoral.
O episódio acrescenta um novo elemento à relação entre Brasil e Estados Unidos às vésperas da eleição. Enquanto o governo brasileiro sustenta que medidas e articulações de Washington podem afetar o processo eleitoral, autoridades norte-americanas negam interferência, deixando a controvérsia sob análise das instituições responsáveis pela investigação.
Fonte: BBC Brasil.
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