
O número de brasileiros de 16 a 24 anos aptos a votar caiu 22% entre 2010 e 2026, segundo levantamento do Instituto Nexus com base em dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O contingente passou de 24,7 milhões para 19,2 milhões, uma redução de 5,5 milhões de eleitores. No mesmo período, o eleitorado brasileiro como um todo cresceu 17%, chegando a 158,8 milhões de pessoas.
A mudança tem relação direta com o envelhecimento da população brasileira. Dados do Censo do IBGE mostram que a quantidade de pessoas entre 16 e 24 anos também diminuiu ao longo dos últimos anos. No entanto, a redução dessa faixa etária na população não explica sozinha a queda registrada no eleitorado, indicando que outros fatores também influenciam a participação política dos jovens.
Distanciamento das instituições
Para especialistas ouvidos sobre o fenômeno, uma das hipóteses é a relação cada vez mais distante entre parte da juventude e as instituições políticas tradicionais. A desconfiança em partidos, Congresso e outras estruturas não significa necessariamente abandono da vida pública, mas pode estar associada a novas formas de participação, principalmente pelas redes sociais, comunidades digitais e movimentos ligados a causas específicas.
Os dados de comparecimento também mostram diferenças dentro da própria faixa etária. Entre adolescentes de 16 e 17 anos, para quem o voto é facultativo, a participação nas eleições gerais permaneceu relativamente estável nas últimas disputas. Já entre os eleitores de 18 a 24 anos, faixa em que o voto é obrigatório, houve redução no comparecimento ao longo do período analisado.
O cenário indica que o problema não está necessariamente entre os jovens que já possuem título e participam das eleições. Uma parcela importante pode estar ficando fora do processo ainda na etapa de alistamento eleitoral.
Jovens fora do cadastro eleitoral
Não existe um número oficial do TSE que mostre diretamente quantos brasileiros de cada idade ainda não possuem título de eleitor. É possível, porém, fazer uma estimativa a partir do cruzamento de dados populacionais do IBGE com o eleitorado registrado pela Justiça Eleitoral.
Essa diferença é mais evidente entre os jovens de 18 a 24 anos, faixa em que o voto é obrigatório. O número de brasileiros nessa idade é superior ao de eleitores registrados, indicando que parte desse grupo ainda não está cadastrada na Justiça Eleitoral.
O fenômeno também ocorre em um momento em que a juventude encontra novas formas de participação política. A atuação em redes sociais, movimentos independentes e comunidades digitais pode fazer com que o envolvimento com temas públicos não se traduza necessariamente em participação eleitoral.
O voto jovem e as eleições de 2026
A mudança no perfil etário do eleitorado também interfere no cenário das eleições de 2026. Pesquisas recentes mostram diferenças entre o comportamento do eleitorado geral e o de determinadas faixas etárias mais jovens. O Datafolha, por exemplo, registrou maior indecisão entre eleitores de 16 a 24 anos em levantamento realizado em setembro.
O debate também envolve candidaturas que tentam dialogar com esse público. Pesquisas eleitorais recentes passaram a apresentar recortes por idade, permitindo observar diferenças nas intenções de voto entre os grupos. Esses números, entretanto, representam retratos de determinados períodos e não explicam, isoladamente, as razões pelas quais os jovens se aproximam ou se afastam das eleições.
Um direito conquistado há quase 40 anos
O voto facultativo para jovens de 16 e 17 anos foi incorporado à Constituição de 1988, durante o processo de redemocratização do país. A conquista foi resultado da mobilização de estudantes que defendiam a ampliação da participação política dessa parcela da população.
Entre os movimentos daquele período esteve o “Se Liga 16”, que buscava não apenas garantir o direito ao voto, mas também estimular os adolescentes a tirar o título eleitoral. Na eleição de 1990, mais de 2 milhões de eleitores menores de 18 anos participaram do processo eleitoral pela primeira vez.
Quase quatro décadas depois, o desafio mudou. Em vez de apenas conquistar o direito de votar, a questão passou a ser como aproximar uma nova geração das instituições eleitorais e fazer com que o interesse por temas públicos também se traduza em participação política.
O recuo do eleitorado jovem, portanto, reúne fatores demográficos e comportamentais. O Brasil está envelhecendo, mas os dados indicam que a redução da presença dos jovens nas estatísticas eleitorais ocorre em ritmo diferente do envelhecimento populacional. A relação dessa geração com partidos e instituições, assim como as novas formas de engajamento político, aparece como parte importante desse processo.
Fonte: BBC Brasil.
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