Eleições 2026

Vitória de Lula interrompe sequência de triunfos da direita na América Latina

por Redação
Ricardo Stuckert/Presidência

A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no Brasil representa um marco no cenário político latino-americano. O resultado interrompe uma sequência de vitórias de candidatos conservadores na região desde o retorno de Donald Trump à Presidência dos Estados Unidos, em 2025.

Nos últimos meses, países como Peru, Colômbia, Costa Rica, Honduras, Chile, Bolívia e Equador elegeram representantes da direita. Nesse contexto, Brasil e México, governado por Claudia Sheinbaum, permanecem entre as principais economias latino-americanas sob administrações de esquerda.

Sheinbaum foi uma das primeiras lideranças da região a parabenizar Lula pela vitória. Nas redes sociais, a presidente mexicana celebrou o resultado como uma conquista democrática do povo brasileiro.

Alinhamento com os Estados Unidos marca governos da região

A professora Carolina Silva Pedroso, do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), avalia que a direita latino-americana reúne diferentes correntes, desde lideranças mais radicais, como Javier Milei, na Argentina, até representantes de posições mais moderadas.

Apesar das diferenças, a especialista destaca o alinhamento de diversos governos com a administração de Donald Trump. O presidente norte-americano tem buscado ampliar sua influência regional por meio do apoio a candidatos ideologicamente próximos e de iniciativas de cooperação em segurança.

Entre essas ações está o Escudo das Américas, aliança voltada ao combate ao narcotráfico e ao crime transnacional, que reúne governos da região alinhados à iniciativa norte-americana.

Nesse cenário, Lula se destaca entre os presidentes latino-americanos que adotaram uma postura pública de enfrentamento às iniciativas de Washington.

Eleição brasileira pode influenciar o cenário regional

Para Sidney Chalhoub, professor de História da Universidade Harvard e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o resultado brasileiro pode representar uma mudança na dinâmica política da região, especialmente se for acompanhado por uma perda de força do governo Trump nas eleições legislativas de meio de mandato dos Estados Unidos, conhecidas como midterms.

Na avaliação do historiador, o Brasil pode assumir um papel importante na resistência ao avanço da direita latino-americana e à ampliação da influência norte-americana no continente.

A cientista política Denilde Holzhacker, especialista em relações internacionais da ESPM, também destaca particularidades da disputa brasileira. Segundo ela, o debate eleitoral incluiu críticas à intervenção dos Estados Unidos e ao poder das grandes empresas de tecnologia, conhecidas como big techs.

A especialista observa ainda que a experiência de países vizinhos, como a Argentina de Javier Milei, foi utilizada no debate político brasileiro. A relação entre Milei e Flávio Bolsonaro também esteve entre os temas explorados durante a campanha de Lula.

Uruguai também mantém governo de esquerda

Na América do Sul, além do Brasil, o Uruguai é governado por uma liderança de esquerda. Yamandú Orsi venceu as eleições de novembro de 2024 e sucedeu Luis Alberto Lacalle Pou, representante da direita. A próxima eleição presidencial uruguaia está prevista para 2029.

Guiana e Suriname também aparecem fora do campo conservador predominante no mapa regional, embora não sejam considerados países latino-americanos em algumas classificações linguísticas e históricas. Na Guiana, o presidente Irfaan Ali mantém relações com a iniciativa de segurança apoiada por Trump. Já o Suriname é governado por Jennifer Geerlings-Simons desde 2025.

A Venezuela apresenta uma situação distinta. Após a crise em torno das eleições de 2024 e a captura de Nicolás Maduro pelo governo norte-americano, o país passou a ser presidido por Delcy Rodríguez, que integra o antigo governo chavista, mas vem promovendo mudanças econômicas e mantendo relações com os Estados Unidos.

Cenário regional segue em disputa

Embora a direita continue predominante em boa parte da América Latina, a vitória brasileira evidencia que o mapa político regional não é uniforme. Diferenças econômicas, sociais e nacionais influenciam o comportamento do eleitorado e os projetos escolhidos em cada país.

O resultado também reforça a importância do Brasil no equilíbrio político do continente, em um momento de disputa por influência entre governos latino-americanos e os Estados Unidos.

Fonte: BBC Brasil.

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