
O economista Daron Acemoglu, vencedor do Nobel de Economia em 2024 e professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), considera a eleição presidencial brasileira de 2026 a mais importante do mundo fora dos Estados Unidos neste ano. Em entrevista à BBC News Brasil, ele afirmou que o resultado poderá influenciar os rumos da democracia na América Latina e a atuação dos países em desenvolvimento no cenário internacional.
Segundo Acemoglu, uma eventual volta da família Bolsonaro ao poder teria consequências que ultrapassariam o Brasil. O economista compara esse cenário ao retorno de Donald Trump à Presidência dos Estados Unidos, em 2024, e avalia que o avanço de forças contrárias ao sistema político tradicional representa um desafio para as democracias.
Corrupção afeta confiança nas instituições
Na análise do pesquisador, a insatisfação popular com os governos está relacionada à capacidade das instituições de oferecer melhores condições de vida, serviços públicos e transparência. Ele aponta a corrupção como um dos fatores que reduzem a confiança da população na democracia.
Ao comentar a trajetória do PT, Acemoglu reconheceu a relevância das políticas sociais adotadas nos primeiros governos de Luiz Inácio Lula da Silva, mas afirmou que os escândalos de corrupção prejudicaram a imagem do partido. Para ele, a legenda também não conseguiu construir uma proposta capaz de unificar diferentes grupos de trabalhadores.
Apesar das críticas, o economista considera Lula uma alternativa melhor que Flávio Bolsonaro. Ele avalia, porém, que o atual governo perdeu a oportunidade de recuperar a força política e a capacidade de mobilização que marcaram os primeiros mandatos petistas.
Economista defende novo modelo de liberalismo
Em seu livro What Happened to Liberal Democracy?, ainda sem tradução para o português, Acemoglu propõe o chamado “liberalismo da classe trabalhadora”. A ideia é combinar liberdades individuais, participação democrática e distribuição mais ampla dos benefícios do crescimento econômico.
Segundo o pesquisador, a democracia precisa garantir prosperidade compartilhada e permitir que a população participe das decisões que afetam sua vida. Ele também critica a concentração de poder nas grandes empresas de tecnologia, que, em sua avaliação, ameaça o controle democrático sobre a informação e o desenvolvimento de novas ferramentas.
IA deve beneficiar trabalhadores
A inteligência artificial é outro ponto central das preocupações do economista. Acemoglu defende que a tecnologia seja desenvolvida para ampliar as capacidades dos trabalhadores, facilitar a resolução de problemas e criar novas funções, em vez de priorizar apenas a automação de tarefas.
Ele também alerta para a concentração dos investimentos em poucas empresas e considera que parte das apostas financeiras no setor pode envolver uma bolha. Embora reconheça o avanço dos modelos de IA, questiona se os ganhos de produtividade ocorrerão na velocidade projetada pelo mercado.
Brasil pode ampliar participação global
Para Acemoglu, o Brasil tem condições de contribuir para o desenvolvimento de aplicações de inteligência artificial voltadas às necessidades da economia nacional, mesmo sem competir diretamente com as maiores empresas globais do setor.
O economista defende investimentos em infraestrutura digital, educação e cooperação entre governos e empresas. Também considera importante que países em desenvolvimento atuem conjuntamente para ampliar sua influência sobre as decisões que definirão o futuro da tecnologia.
Na avaliação do pesquisador, o resultado da eleição brasileira será relevante para o futuro das instituições democráticas e para a capacidade do país de participar dos principais debates econômicos e tecnológicos internacionais.
Fonte: BBC Brasil.
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