
A esquerda brasileira ainda não possui uma estrutura digital tão organizada quanto a do bolsonarismo. A avaliação é do filósofo e professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Marcos Nobre, que estuda o chamado Partido Digital Bolsonarista (PDB).
Em entrevista à BBC News Brasil, o pesquisador explicou que o grupo funciona como uma organização política sem registro formal, mas com hierarquia, mobilização, engajamento e projeto de poder. Sua atuação se estende a diferentes partidos, com maior presença no PL.
Esquerda atua de forma fragmentada
Segundo Nobre, enquanto o bolsonarismo consolidou uma rede de influência nas plataformas digitais, a esquerda permanece dividida em grupos com articulação limitada.
Embora políticos progressistas tenham conquistado espaço nas redes e chegado ao Legislativo, o pesquisador afirma que ainda não identificou uma organização digital de esquerda com características semelhantes às do PDB.
Mobilização de Janones tem alcance imediato
O filósofo também analisou o “Exército de Lula”, canal de WhatsApp criado pelo deputado André Janones durante a campanha do segundo turno, que ultrapassou 6,6 milhões de inscritos.
Para Nobre, a iniciativa pode ajudar a mobilizar eleitores em uma disputa acirrada, mas não representa, necessariamente, o início de um partido digital. Ele considera que o modelo tem caráter imediato e enfrenta dificuldades para se manter após a eleição, inclusive por funcionar como uma estrutura paralela à hierarquia do PT.
Algoritmos e financiamento são desafios
Nobre avalia que partidos tradicionais ainda têm dificuldade para se adaptar à lógica das plataformas. Na visão dele, a extrema-direita aprendeu a atuar dentro dessa dinâmica, enquanto parte da esquerda continua tratando o ambiente digital como uma ferramenta externa à política.
O pesquisador também aponta que influenciadores progressistas podem temer a perda de patrocínios ao declarar apoio político. Por isso, defende a criação de alternativas de financiamento e uma atuação simultânea pela transparência dos algoritmos e pela disputa de espaço nas redes.
Campanha pode mudar a estratégia
Apesar das diferenças, Nobre acredita que a eleição pode ampliar a percepção da esquerda sobre a organização digital da extrema-direita.
Ele ressalta que a disputa política não acontece apenas na internet. Manifestações nas ruas e a atuação em comunidades também fortalecem vínculos entre apoiadores e alimentam a mobilização nas redes sociais.
Fonte: BBC Brasil.
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