
O próximo governo federal começará 2027 diante de um cenário econômico que exigirá decisões sobre gastos públicos, estímulo à atividade econômica e poder de compra da população. Tanto Luiz Inácio Lula da Silva (PT) quanto Flávio Bolsonaro (PL) apresentam propostas para essas áreas, mas economistas avaliam que ainda faltam definições sobre como as medidas serão executadas.
A dívida pública elevada, a previsão de crescimento mais lento e as dificuldades financeiras enfrentadas pelas famílias estão entre os principais pontos de atenção. Para especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, a condução da política fiscal e a escolha da equipe econômica serão decisivas para os rumos do país.
Ajuste fiscal será uma das primeiras cobranças
Em agosto, a dívida bruta do governo geral alcançou R$ 11,1 trilhões, correspondentes a 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB), conforme dados do Banco Central. O avanço do indicador aumenta a preocupação com a capacidade de estabilizar as contas públicas e pode dificultar a redução dos juros.
Flávio Bolsonaro defende cortes de despesas administrativas, redução da estrutura ministerial e combate a desperdícios. No entanto, também promete manter o ganho real do salário mínimo e preservar a vinculação de benefícios sociais e aposentadorias ao piso nacional, além dos recursos mínimos destinados à Saúde e à Educação.
Na avaliação de especialistas, conciliar essas garantias com uma redução expressiva de impostos e despesas será um dos principais desafios do plano econômico do candidato do PL.
Lula, por sua vez, aposta no crescimento da economia e no aumento da arrecadação para melhorar o resultado fiscal. Entretanto, medidas anunciadas durante a campanha podem elevar despesas ou reduzir receitas, segundo a análise apresentada pela BBC News Brasil.
Para o economista Felipe Salto, da Warren Investimentos, e a economista-chefe do Banco Inter, Rafaela Vitória, o próximo presidente precisará apresentar medidas concretas para equilibrar as contas. Entre as possibilidades discutidas estão a revisão de benefícios tributários e mudanças nas regras de crescimento das despesas obrigatórias.
Previsão de expansão menor da economia
As perspectivas para 2027 também preocupam. As projeções do boletim Focus citadas na reportagem indicam crescimento de 1,32% do PIB no próximo ano, abaixo dos 1,83% esperados para 2026. Alguns analistas consideram que a expansão pode ficar próxima de 1%.
A desaceleração poderá ser influenciada pelos juros elevados, pela redução de estímulos fiscais e por dificuldades na produção agropecuária, incluindo possíveis impactos climáticos sobre as safras e os preços dos alimentos.
Para impulsionar a atividade, Flávio propõe reduzir a burocracia, estimular investimentos privados, ampliar concessões e rever regras de licenciamento. O programa também prevê incentivos a setores como energia, mineração, tecnologia e agronegócio.
Lula aposta na continuidade de programas de infraestrutura e reindustrialização, além da ampliação do crédito para pequenos negócios e de políticas destinadas a fortalecer a renda e o consumo.
Segundo economistas, o desafio será promover o crescimento sem depender excessivamente da expansão dos gastos públicos. Uma melhora fiscal poderia abrir espaço para a redução dos juros e favorecer a recuperação econômica.
Endividamento e preços pesam no orçamento
As dificuldades financeiras das famílias formam outro ponto de pressão sobre o próximo governo. Em setembro, 81,7% das famílias brasileiras estavam endividadas, de acordo com dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).
Embora o poder de compra tenha apresentado melhora em relação a 2022 em alguns indicadores, o custo de vida continua sendo uma preocupação. Dados citados na reportagem mostram que o salário mínimo de R$ 1.621 comprava aproximadamente 1,76 cesta básica de São Paulo em setembro de 2026.
Lula propõe manter a valorização real do salário mínimo, ampliar programas de apoio à agricultura familiar e adotar medidas para reduzir despesas com alimentos e energia. O governo também apresentou iniciativas de renegociação de dívidas, como uma nova versão do Desenrola.
Flávio defende a redução de tributos sobre o consumo, mudanças nos encargos da conta de luz e melhorias na logística de transporte e armazenamento de produtos agrícolas. Para enfrentar o endividamento, propõe que a Caixa Econômica Federal participe da recompra de dívidas, com períodos de carência para famílias e empresas.
A proposta de carência provocou questionamentos de agentes do mercado financeiro, preocupados com possíveis efeitos sobre o sistema bancário.
Reformas devem definir os resultados
Para especialistas, medidas pontuais podem aliviar o orçamento das famílias, mas não substituem mudanças estruturais capazes de melhorar a produtividade e criar condições para um crescimento duradouro.
O controle das despesas públicas, a redução sustentável dos juros e o aumento da capacidade de investimento estão entre os fatores considerados essenciais para enfrentar os desafios econômicos.
Assim, o desempenho do próximo governo dependerá da capacidade de transformar as promessas de campanha em medidas viáveis, conciliando equilíbrio fiscal, expansão econômica e proteção ao poder de compra da população.
Fonte: BBC Brasil.
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