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Brasil

Por que o Brasil não tem bomba atômica e o que seria necessário para desenvolver uma?

País possui tecnologia nuclear, mas aderiu a acordos que proíbem armas atômicas

28/08/2026 10h46 por Redação
Foto: Reprodução/Getty Images

A defesa do desenvolvimento de armas nucleares voltou ao debate político brasileiro após o candidato à Presidência Renan Santos (Missão) afirmar que o país precisaria ter uma bomba atômica para ampliar sua soberania e ocupar uma posição de maior influência no cenário internacional. Apesar de possuir conhecimento e infraestrutura na área nuclear, o Brasil optou historicamente pelo uso pacífico da tecnologia e assumiu compromissos internacionais que impedem o desenvolvimento de armamentos desse tipo.

Atualmente, nove países possuem arsenais nucleares: Estados Unidos, Rússia, China, França, Reino Unido, Índia, Paquistão, Israel e Coreia do Norte. O Brasil, embora não faça parte desse grupo, possui reservas de urânio e desenvolveu tecnologia própria para enriquecimento do combustível nuclear.

Segundo especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, a principal razão para o país nunca ter desenvolvido uma bomba foi a ausência de uma ameaça militar externa que justificasse a criação de um arsenal. O historiador Carlo Patti, da Universidade de Pádova, resume que o Brasil “não precisa” de armas nucleares porque nunca enfrentou uma ameaça estratégica comparável à vivida por outras potências.

Uma discussão que não começou agora

A ideia de o Brasil desenvolver armas nucleares já apareceu em diferentes momentos da história. Um dos exemplos mais conhecidos foi o do político Enéas Carneiro, que defendeu abertamente a construção de uma bomba durante campanhas presidenciais.

Na atual corrida eleitoral, Renan Santos é o candidato que apresenta explicitamente a proposta de desenvolver capacidade nuclear militar. Pablo Marçal também já defendeu que o Brasil tivesse artefatos nucleares.

O tema, entretanto, não representa uma posição predominante entre os principais grupos políticos brasileiros. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por exemplo, defende o desenvolvimento da tecnologia nuclear para fins estratégicos e tecnológicos, incluindo a conclusão do primeiro submarino brasileiro de propulsão nuclear, mas mantém o discurso de que a América do Sul deve permanecer como uma região livre de armas nucleares.

Programa nuclear brasileiro teve projetos secretos

O desenvolvimento nuclear brasileiro começou a ganhar força na década de 1950, quando pesquisadores e militares passaram a discutir a utilização da nova tecnologia.

Durante a ditadura militar, especialmente a partir do final dos anos 1970, as Forças Armadas desenvolveram projetos paralelos e mantidos em sigilo. Exército, Marinha e Aeronáutica passaram a trabalhar em diferentes áreas relacionadas à tecnologia nuclear.

O Exército pesquisou a possibilidade de produzir plutônio. A Aeronáutica estudou métodos de enriquecimento de urânio e chegou a desenvolver projetos relacionados a dispositivos explosivos nucleares. Já a Marinha concentrou esforços na criação de um submarino de propulsão nuclear.

Parte desses projetos era realizada em parceria com centros de pesquisa civis, incluindo instituições ligadas a universidades.

A existência de possíveis planos para desenvolver uma bomba brasileira nunca foi completamente esclarecida. Um dos episódios mais conhecidos envolve a construção de poços na Serra do Cachimbo, no Pará, que poderiam estar relacionados a testes nucleares.

Os poços foram revelados publicamente em 1986, já durante o processo de redemocratização. Em 1990, o então presidente Fernando Collor determinou que fossem fechados.

Brasil conseguiu dominar o enriquecimento de urânio

Embora não tenha desenvolvido uma arma nuclear, os projetos realizados durante o período militar deixaram um importante legado tecnológico.

A Marinha, em parceria com pesquisadores civis, conseguiu desenvolver tecnologia de ultracentrifugação para o enriquecimento de urânio. Em 1987, o Brasil anunciou oficialmente que havia alcançado essa capacidade.

O domínio dessa tecnologia é considerado estratégico porque o enriquecimento de urânio pode ser utilizado tanto na produção de combustível para reatores quanto, em níveis muito mais elevados, na fabricação de armas nucleares.

O Brasil possui ainda reservas de urânio e capacidade própria de produção de combustível nuclear, o que coloca o país entre um grupo relativamente restrito de nações com domínio de diferentes etapas do ciclo nuclear.

Por que o país abriu mão de desenvolver armas?

Com a redemocratização, o Brasil passou a abandonar qualquer possibilidade de utilização militar da tecnologia nuclear.

A aproximação com a Argentina foi fundamental nesse processo. Os dois países estabeleceram mecanismos de fiscalização mútua e avançaram na construção de uma relação de confiança na área nuclear.

Em 1998, o Brasil aderiu ao Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares (TNP), assumindo formalmente o compromisso de não desenvolver armas atômicas.

A Constituição brasileira também estabelece que as atividades nucleares no país devem ter fins pacíficos.

Segundo especialistas, a adesão ao tratado foi resultado de uma combinação entre a redemocratização, a aproximação com a Argentina, a mudança no cenário internacional e o amadurecimento do programa nuclear brasileiro.

Teria condições de fabricar uma bomba hoje?

Não há informações públicas suficientes para afirmar com precisão quanto tempo ou quais recursos seriam necessários para que o Brasil desenvolvesse uma arma nuclear.

O país possui conhecimento científico, infraestrutura nuclear, reservas de urânio e tecnologia de enriquecimento. Isso, porém, não significa que esteja atualmente preparado para produzir uma bomba.

O desenvolvimento de um arsenal nuclear exigiria mudanças profundas na política externa e de defesa brasileira, além de romper compromissos internacionais assumidos pelo país.

Uma eventual decisão nesse sentido também poderia provocar consequências diplomáticas e econômicas, incluindo sanções e isolamento internacional.

Foi justamente esse tipo de preocupação que apareceu nas discussões internas do período militar. Segundo o historiador Carlo Patti, integrantes do governo da época avaliavam que um teste nuclear brasileiro poderia provocar sanções internacionais e prejudicar a relação do país com a Argentina.

O que muda com uma bomba nuclear?

A principal justificativa apresentada por defensores de um arsenal nuclear é a chamada dissuasão. A lógica é que um país com capacidade de retaliar um ataque nuclear poderia desencorajar outras potências de atacá-lo.

É esse argumento que Renan Santos utiliza ao defender a proposta como instrumento de soberania.

O problema é que a realidade brasileira é bastante diferente da enfrentada por países que desenvolveram arsenais nucleares em contextos de guerras, rivalidades militares ou ameaças externas diretas.

Além disso, a existência de armas nucleares não elimina outros tipos de conflitos e pode aumentar os custos diplomáticos, militares e econômicos para o país que decide desenvolvê-las.

Debate volta em meio ao aumento das tensões internacionais

A discussão ocorre em um cenário internacional marcado pela modernização dos arsenais nucleares e pelo aumento das tensões entre grandes potências.

Nos últimos anos, Rússia, China e Estados Unidos ampliaram ou modernizaram suas capacidades militares, enquanto conflitos envolvendo países com programas nucleares voltaram a aumentar a preocupação sobre uma possível escalada.

Nesse contexto, países que atualmente não possuem armas nucleares também passaram a discutir se deveriam ampliar suas capacidades estratégicas.

No Brasil, entretanto, o debate sobre a construção de uma bomba ainda permanece restrito a setores específicos da política e não representa a orientação oficial do Estado brasileiro.

O país mantém sua política de utilização pacífica da energia nuclear e continua investindo em tecnologias como o submarino de propulsão nuclear, que pode ampliar a capacidade de defesa e a autonomia tecnológica sem necessariamente envolver a produção de armas atômicas.

Fonte: BBC Brasil.

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