
A situação econômica das famílias brasileiras pode ter mais influência sobre o resultado da eleição presidencial de 2026 do que as investigações envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. A avaliação é do economista e pesquisador Maurício Moura, fundador do instituto Ideia, que considera decisivo o comportamento de uma parcela de aproximadamente 5 milhões de eleitores ainda aberta a mudar de voto.
De acordo com Moura, esse grupo representa entre 3% e 4% do eleitorado e apresenta características específicas: é formado majoritariamente por mulheres, está concentrado nas regiões metropolitanas do Sudeste, possui renda entre dois e cinco salários mínimos e convive com dificuldades relacionadas ao endividamento e ao orçamento doméstico.
Segundo o pesquisador, esses eleitores não estão fortemente inseridos nas disputas políticas das redes sociais e tendem a definir o voto apenas nas semanas que antecedem a eleição. Por isso, questões diretamente relacionadas ao cotidiano, como renda, dívidas, juros e custo de vida, podem pesar mais na escolha.
Investigações sobre Lulinha
Moura avalia que as investigações envolvendo o filho mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva não devem alterar de maneira significativa o cenário eleitoral atual.
Lulinha é alvo de três inquéritos da Polícia Federal que apuram suspeitas de tráfico de influência e possível favorecimento de empresas interessadas em contratos com órgãos do governo federal. Ele nega qualquer irregularidade.
Na avaliação do pesquisador, o eleitorado mais próximo de Lula ou do campo de oposição já possui opiniões consolidadas sobre acusações de corrupção. Dessa forma, o caso teria maior repercussão entre grupos politicamente alinhados do que entre os eleitores que ainda não decidiram seu voto.
Endividamento e custo de vida
Entre os fatores que podem influenciar a escolha do eleitor, Moura destaca o endividamento das famílias e a dificuldade de conciliar diferentes fontes de renda com as despesas mensais.
As apostas esportivas também aparecem como uma preocupação crescente entre esse público. Para o pesquisador, o impacto financeiro das chamadas bets pode se transformar em um tema relevante durante a campanha.
A avaliação é que candidatos capazes de apresentar propostas concretas para melhorar a situação financeira das famílias terão maior capacidade de conquistar esse eleitorado.
Governo e oposição enfrentam desafios
Moura considera que o governo Lula enfrenta uma dificuldade para apresentar uma mensagem econômica que desperte expectativa semelhante à observada em eleições anteriores.
O pesquisador lembra que campanhas do PT em diferentes momentos foram associadas a temas como geração de empregos, expansão de programas sociais, crescimento econômico e aumento do consumo.
Para 2026, ele avalia que medidas como mudanças no Imposto de Renda, programas de renegociação de dívidas e a discussão sobre o fim da escala 6×1 ainda não formaram uma narrativa econômica suficientemente forte para mobilizar esse eleitor.
A oposição, por outro lado, também teria dificuldade para apresentar uma proposta capaz de responder diretamente aos problemas econômicos enfrentados pelas famílias. Para Moura, apenas o discurso contrário ao PT não seria suficiente para conquistar os votos dos indecisos.
Sudeste ganha importância
O comportamento do eleitorado do Sudeste é apontado como um dos elementos que podem definir a disputa. São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais concentram grandes contingentes de eleitores e possuem regiões metropolitanas onde Lula e Flávio Bolsonaro podem disputar votos de maneira mais equilibrada.
Na avaliação do pesquisador, o Nordeste continua sendo uma região importante para Lula, mas uma eventual redução da vantagem petista não necessariamente significaria uma migração automática desses eleitores para a oposição.
Com isso, a disputa pelo eleitorado das grandes cidades do Sudeste pode ganhar peso na definição do resultado nacional.
Flávio Bolsonaro pode ampliar votação
Moura também avalia que Flávio Bolsonaro ainda possui espaço para crescer nas pesquisas. Um dos fatores seria o chamado “antipetismo de chegada”, quando eleitores que preferem candidatos menos competitivos optam por apoiar aquele que aparece com maiores chances de derrotar o PT.
Esse movimento pode atingir eleitores de candidatos como Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan Santos caso essas candidaturas não consigam alcançar níveis mais elevados de intenção de voto.
Ao mesmo tempo, Lula pode ser beneficiado pela ausência de uma candidatura competitiva no campo da esquerda, concentrando parte dos votos desse espectro político já no primeiro turno.
Possibilidade de eleição no primeiro turno
Diante desse cenário, Maurício Moura considera que existe possibilidade de a eleição presidencial ser decidida já no primeiro turno.
A avaliação leva em conta três fatores principais: a concentração do voto de esquerda em Lula, o possível voto útil em Flávio Bolsonaro entre eleitores antipetistas e a existência de uma parcela significativa do eleitorado que pode optar por branco, nulo ou simplesmente não comparecer às urnas.
Apesar disso, o pesquisador ressalta que o cenário ainda pode mudar conforme a campanha avance.
Para Moura, a principal disputa será pela parcela do eleitorado que não está totalmente identificada com nenhum dos dois principais campos políticos. E, nesse grupo, a percepção sobre a própria vida financeira pode ser mais determinante do que os debates políticos que dominam as redes sociais.
Fonte: BBC Brasil.
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