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Vitória democrata nos EUA não deve reduzir pressão de Trump sobre o Brasil, avaliam especialistas

por Redação
Foto: Reprodução/Reuters

A retomada do controle do Congresso dos Estados Unidos pelo Partido Democrata não deve representar uma mudança significativa na relação do governo Donald Trump com o Brasil. A avaliação é de especialistas em política internacional ouvidos pela BBC News Brasil, que consideram improvável uma reversão das medidas comerciais e das pressões diplomáticas adotadas pela Casa Branca contra o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Com a vitória nas eleições de meio de mandato, conhecidas como midterms, os democratas devem assumir a maioria na Câmara dos Representantes e no Senado a partir de janeiro de 2027. A nova composição tende a ampliar os obstáculos políticos enfrentados por Trump na condução de sua agenda interna, mas não deve alterar diretamente decisões sobre tarifas comerciais, sanções e política externa.

Para o economista Otaviano Canuto, ex-vice-presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o Congresso poderá ampliar a fiscalização das ações do governo americano e criar dificuldades de interlocução para a Casa Branca. No entanto, não possui instrumentos suficientes para modificar diretamente as principais medidas que afetam o Brasil.

Tarifas e sanções devem continuar

Entre os pontos que devem permanecer estão as tarifas impostas a produtos brasileiros, a pressão para que o país reduza sua aproximação com a China e as medidas relacionadas à classificação de facções criminosas brasileiras como organizações terroristas.

O professor Lucas Leite, da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), avalia que a vitória democrata pode ampliar o diálogo entre o Congresso americano e o governo brasileiro, especialmente em temas como meio ambiente. Ainda assim, ressalta que a mudança na composição legislativa não elimina a agenda internacional de Trump.

Uma das razões é que medidas como as tarifas comerciais e a aplicação da Lei Magnitsky estão vinculadas a instrumentos de atuação do Poder Executivo. Dessa forma, sua revisão dependeria de articulações políticas e institucionais mais complexas.

A professora Regiane Bressan, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), acredita que as comissões de Relações Exteriores do Congresso poderão intensificar a cobrança de explicações ao Departamento de Estado, responsável pela condução da diplomacia americana. Mesmo assim, essa fiscalização não significa que haverá mudanças imediatas nas decisões de Trump.

Congresso deve concentrar oposição na política interna

A expectativa dos especialistas é que os parlamentares democratas priorizem temas domésticos, como as políticas de imigração, deportações e os impactos econômicos das decisões presidenciais.

O professor Carlos Gustavo Poggio, do Berea College, nos Estados Unidos, observa que Trump tem utilizado decretos executivos para implementar parte significativa de sua agenda, reduzindo a participação do Congresso em determinadas decisões. Nesse cenário, a disputa institucional poderá se intensificar, mas sem necessariamente alcançar as medidas adotadas contra o Brasil.

Outro fator apontado pelos analistas é que a política comercial protecionista dos Estados Unidos não representa uma posição exclusiva dos republicanos. Há convergência entre democratas e republicanos na defesa de setores industriais estratégicos, como aço e alumínio, o que reduz as chances de uma mudança nas tarifas aplicadas a esses produtos.

Pressão internacional pode até aumentar

Na avaliação do cientista político Feliciano de Sá Guimarães, diretor do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), a nova configuração do Congresso poderá abrir espaço para negociações, mas os democratas também deverão apresentar exigências ao Brasil.

Os especialistas ainda consideram a possibilidade de Trump intensificar sua atuação internacional diante das dificuldades que poderá enfrentar no Congresso. Historicamente, presidentes americanos que perdem força no Legislativo podem ampliar iniciativas na política externa para compensar os obstáculos internos.

Nesse contexto, a vitória democrata não representa necessariamente um alívio para o governo Lula. Embora possa ampliar os canais de diálogo com Washington, a pressão comercial e diplomática dos Estados Unidos sobre o Brasil tende a permanecer como parte da estratégia da atual administração americana.

Fonte: BBC Brasil.

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