
A diferença de comportamento eleitoral entre homens e mulheres ganhou ainda mais importância na disputa presidencial de 2026. Pesquisas recentes apontam que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) mantém vantagem entre as eleitoras, enquanto o senador Flávio Bolsonaro (PL) apresenta desempenho melhor entre os homens.
O cenário pode ter peso decisivo na eleição, já que as mulheres representam 52,8% do eleitorado brasileiro, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). São cerca de 83,8 milhões de eleitoras, aproximadamente 9 milhões a mais que os homens.
Na pesquisa Genial/Quaest realizada no início de agosto, Lula aparece com 44% das intenções de voto em um eventual segundo turno contra Flávio Bolsonaro, que registra 39%. Entre as mulheres, entretanto, a diferença é maior: 47% declararam preferência por Lula, enquanto 35% escolheriam Flávio.
Diferença aumentou nos últimos anos
O chamado gap de gênero, expressão utilizada para definir a diferença entre as preferências eleitorais de homens e mulheres, ganhou força nas últimas eleições.
Segundo o cientista político Jairo Nicolau, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), a divisão ficou mais evidente a partir de 2018 e se ampliou nas eleições seguintes.
Em 2022, por exemplo, Lula apresentou vantagem entre as mulheres, enquanto Jair Bolsonaro teve desempenho superior entre os homens. Foi a primeira eleição presidencial em que um candidato conseguiu chegar à vitória com vantagem concentrada em apenas um dos segmentos de gênero.
O padrão aparece novamente nas pesquisas de 2026. De acordo com levantamentos da Genial/Quaest, a preferência por Lula entre as mulheres é especialmente elevada no Nordeste, entre eleitoras pretas e entre aquelas com renda de até dois salários mínimos.
O que explica o comportamento das eleitoras?
Especialistas apontam que a diferença não significa necessariamente que as mulheres tenham se tornado majoritariamente de esquerda. Uma das interpretações é de que o movimento também está relacionado à maior aproximação dos homens com a direita nos últimos anos.
A cientista política Luciana Veiga, da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), afirma que mulheres tendem a demonstrar maior resistência a candidatos identificados com posições consideradas extremas ou com discursos mais agressivos.
Essa característica não significa, necessariamente, rejeição a pautas conservadoras. Questões como segurança pública, por exemplo, também estão entre as principais preocupações das eleitoras.
Levantamento do Instituto Update aponta que 77% das mulheres consideram a segurança pública e a violência entre os principais problemas do país. Para especialistas, porém, a percepção feminina sobre segurança costuma envolver também transporte, iluminação, acesso à Justiça, proteção social e prevenção da violência.
Flávio tenta ampliar apoio entre mulheres
A diferença nas pesquisas levou Flávio Bolsonaro a buscar maior aproximação com o eleitorado feminino durante a campanha.
O senador passou a abordar em discursos e nas redes sociais temas relacionados às preocupações das mulheres e afirmou que a direita possui propostas capazes de responder a questões como segurança pública e combate às drogas.
A composição da chapa também chamou atenção. Flávio escolheu o deputado Alfredo Gaspar (PL) para ocupar a vice-presidência, apesar das expectativas de que uma mulher pudesse integrar a candidatura.
A participação de Michelle Bolsonaro também é considerada relevante nesse cenário. A ex-primeira-dama é apontada como uma das figuras com maior potencial de diálogo com o eleitorado feminino ligado ao bolsonarismo, mas tem mantido distância da campanha em meio a divergências internas no grupo político.
Mulheres ainda são maioria entre os eleitores
A importância desse segmento aumenta porque as mulheres são maioria entre os eleitores brasileiros.
Segundo o TSE, são 83,8 milhões de eleitoras contra 74,8 milhões de eleitores. Essa diferença faz com que qualquer alteração significativa no comportamento do eleitorado feminino possa interferir diretamente na disputa presidencial.
Para especialistas, portanto, conquistar esse público será um dos principais desafios dos candidatos. Lula parte de uma vantagem consolidada nas pesquisas, enquanto Flávio precisa reduzir a rejeição entre as mulheres para equilibrar a disputa.
O cenário, contudo, ainda pode mudar durante a campanha, especialmente com a intensificação dos debates, da propaganda eleitoral e da apresentação das propostas dos candidatos.
Fonte: BBC Brasil.
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