
A Polícia Federal identificou uma estrutura montada dentro do Banco Master para produzir documentos que, segundo a investigação, davam aparência de legitimidade a operações de crédito consignado atribuídas à Tirreno Consultoria e posteriormente negociadas com o Banco de Brasília (BRB).
O esquema, descrito em um relatório técnico-pericial, utilizava dados reais de clientes, planilhas, ferramentas do Microsoft Office, programas desenvolvidos pela área de tecnologia e edição de arquivos PDF. A investigação aponta que documentos antigos eram reaproveitados e modificados para compor dossiês apresentados como comprovação das operações.
Entre os materiais analisados pela PF está uma apresentação interna de 30 slides, intitulada “Investigações internas – Banco Master”. O arquivo registra atividades realizadas entre junho e outubro de 2025 relacionadas à produção de documentos para as cessões de créditos consignados.
Documentos eram produzidos em escala
Segundo a perícia, funcionários extraíam informações de clientes dos sistemas internos do banco e utilizavam os dados para gerar documentos em grande quantidade. Em um dos procedimentos, uma função de mala direta do Microsoft Word foi usada para produzir 2.700 procurações de uma só vez.
A área de tecnologia também desenvolveu ferramentas em C# capazes de separar páginas específicas de arquivos PDF. A PF identificou, por exemplo, um arquivo com 1.833 documentos contendo páginas de assinatura isoladas de Termos de Consentimento.
Essas páginas eram posteriormente utilizadas na composição de novos conjuntos documentais. Cédulas de Crédito Bancário (CCBs), procurações e termos eram reunidos em arquivos únicos para formar os dossiês das operações.
Datas foram retiradas dos arquivos
Um dos principais indícios encontrados pela perícia está relacionado às datas dos documentos. Em conversas internas, funcionários discutiram a retirada de informações que poderiam indicar quando os arquivos haviam sido produzidos.
Em uma mensagem de 20 de junho de 2025, um funcionário afirmou: “precisamos excluir a data”, em referência aos Termos de Consentimento.
A PF encontrou um exemplo no documento de um cliente que originalmente apresentava a data de 24 de fevereiro de 2023. O registro foi posteriormente apagado visualmente durante uma edição realizada em julho de 2025.
Apesar das alterações, a perícia conseguiu recuperar informações por meio dos registros digitais. Em determinados casos, a data escrita na CCB era anterior à assinatura eletrônica. Um documento que indicava uma data de janeiro de 2025, por exemplo, apresentava registro de assinatura digital somente em junho daquele ano.
Comprovantes também foram questionados
A investigação identificou ainda conversas sobre alterações em comprovantes de transferências bancárias. Funcionários discutiram a retirada de informações como número de contrato, evento e histórico das operações.
Segundo a PF, a intenção seria evitar que os comprovantes apresentassem referências às operações originais, incluindo registros relacionados ao CredCesta.
As mensagens também indicam preocupação com questionamentos de auditoria. Em uma conversa relacionada à análise da Deloitte, foi discutida a possibilidade de atribuir inconsistências encontradas nos documentos a um suposto “erro operacional na seleção”.
Documentação chegou à direção
O relatório da PF aponta que a documentação produzida durante a operação também chegou a integrantes da cúpula do Banco Master.
Em junho de 2025, Daniel Vorcaro, proprietário do banco, teria solicitado um conjunto de 300 operações com assinatura digital. Funcionários responderam que providenciariam os arquivos e, posteriormente, encaminharam documentos relacionados às CCBs e procurações.
A investigação agora analisa o conjunto dessas evidências no contexto das operações envolvendo a Tirreno, o Banco Master e o BRB. Segundo a PF, os vestígios digitais encontrados nos arquivos ajudaram a reconstruir a sequência de produção e alteração dos documentos.
Fonte: G1.
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